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Agosto 2026Carta Mensal

O calcanhar de Aquiles

O Brasil tem fortalezas de sobra — recursos naturais, matriz energética privilegiada, sistema financeiro desenvolvido. Mas convive há décadas com a mesma vulnerabilidade: as contas públicas. Em ano eleitoral, a pergunta que antecede todos os planos é como financiá-los.

Na versão mais conhecida da mitologia grega, Aquiles estava destinado a se tornar um grande guerreiro. Tentando protegê-lo, sua mãe, Tétis, teria mergulhado o filho ainda bebê nas águas do rio Estige, capazes de tornar invulnerável tudo aquilo que tocavam. Para segurá-lo, porém, manteve-o pelo calcanhar — justamente a única parte de seu corpo que não entrou em contato com as águas.

Aquiles cresceu e se tornou o maior guerreiro entre os gregos, praticamente invencível em batalha. Mas carregava consigo uma pequena vulnerabilidade. Foi justamente ela que acabou se tornando seu ponto fatal e deu origem à expressão que atravessou os séculos: o calcanhar de Aquiles.

O Brasil também tem o seu. E ele é conhecido há muito tempo: as contas públicas.

Não faltam fortalezas à economia brasileira. Temos recursos naturais abundantes, uma matriz energética privilegiada, um sistema financeiro desenvolvido e uma economia que já demonstrou enorme capacidade de atravessar crises. Mas seguimos convivendo com uma dívida elevada e, principalmente, com dificuldade de construir uma trajetória convincente para estabilizá-la.

Esse problema está longe de ser exclusivamente brasileiro. Estados Unidos, Japão e outras grandes economias também convivem com dívidas e déficits elevados. O FMI projeta que a dívida pública global, que estava próxima de 94% do PIB mundial em 2025, alcance 100% até 2029.

Essa preocupação já aparece nos mercados. A OCDE aponta redução estrutural da demanda por títulos soberanos de longo prazo e maior prêmio exigido pelos investidores. Em 2025, os títulos longos responderam pela menor parcela das emissões soberanas de taxa fixa na OCDE em mais de uma década.

No Brasil, essa discussão ganha relevância adicional em ano eleitoral. Candidatos apresentam seus planos para o país: mais crescimento, investimentos, melhores serviços públicos, redução de impostos ou novos programas sociais. Mas existe uma pergunta anterior a quase todas elas: como financiar esses planos?

Talvez esse seja o aspecto mais curioso do nosso calcanhar de Aquiles. O problema é conhecido há décadas, mas justamente quando discutimos projetos para o futuro do Brasil, a trajetória das contas públicas raramente recebe o protagonismo proporcional à sua importância.

É mais agradável discutir aquilo que pretendemos fazer do que aquilo de que teremos de abrir mão.

O que aconteceu após a eleição de Lula em 2022?

A eleição de 2022 oferece um exemplo interessante. A reação após o primeiro turno foi positiva. O mercado interpretou o resultado como um cenário de maior equilíbrio político: a diferença entre Lula e Bolsonaro foi menor do que indicavam boa parte das pesquisas e o Congresso eleito ficou mais à direita, reduzindo a percepção de espaço para mudanças mais radicais.

Entre os dois turnos houve volatilidade, mas o saldo permaneceu positivo. O primeiro pregão após a vitória de Lula também terminou com bolsa em alta, dólar em queda e juros futuros recuando. A deterioração veio nas semanas seguintes, com a PEC da Transição e o aumento das dúvidas sobre a condução fiscal.

PeríodoIbovespaDólarDI Jan/27
Pregão após o 1º turno+5,54%-4,02%Curva caiu 15-30 bps
Pregão após o 2º turno+1,31%-2,55%11,49%
Novembro-3,10%+0,69%12,65%
Dezembro-2,40%+1,50%12,80%
Fontes: Reuters, B3 e Ace Capital.

A mensagem daquele período foi clara: o resultado da eleição não foi o principal problema. O mercado passou a exigir mais prêmio quando a discussão mudou das urnas para a forma de financiar as escolhas do novo governo.

E essa continua sendo uma das perguntas mais importantes para o Brasil que sairá das urnas em 2026.

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