Abril 2026 — Carta Mensal
As curvas do mercado
Uma analogia com Ayrton Senna para falar de risco, disciplina e tomada de decisão nos momentos em que a margem de erro diminui.

“As corridas são ganhas nas curvas, na reta todo mundo acelera.”
A frase atribuída a Ayrton Senna resume bem o momento atual. Em períodos de tranquilidade, quando o cenário é previsível e o risco parece controlado, o mercado tende a se comportar de forma homogênea. O capital flui, os prêmios comprimem e a percepção de risco diminui. Foi exatamente isso que vimos em algumas classes de ativos.
O crédito privado é um exemplo claro. Anos de juros elevados e baixa inadimplência criaram uma sensação de conforto, levando o investidor a aceitar prêmios cada vez menores para carregar risco, muitas vezes sem a devida diferenciação entre emissores. Esse tipo de movimento funciona enquanto tudo permanece na reta. Mas o mercado, inevitavelmente, entra em curva.
Os eventos recentes envolvendo empresas de grande porte, como Raízen e GPA, serviram como gatilho para reprecificação. Não se trata apenas dos casos específicos, mas do efeito em cadeia: spreads abrem, liquidez diminui e fundos de renda fixa passam a refletir essa mudança de percepção. É o mesmo ativo, mas sob uma ótica diferente.
Ao mesmo tempo, o cenário global adiciona uma camada extra de incerteza. A guerra volta a pressionar o preço do petróleo, com impacto direto sobre inflação e, consequentemente, sobre a trajetória de juros ao redor do mundo. O que parecia caminhar para maior previsibilidade volta a exigir cautela. Nesse ambiente, o erro costuma aparecer justamente onde houve excesso de conforto.
E é aqui que a analogia com Senna ganha força. Curvas não premiam quem acelera mais, mas quem sabe dosar, escolher a trajetória e manter o controle quando a margem de erro diminui. Nos mercados, isso se traduz em disciplina, diversificação e atenção ao risco, especialmente quando ele parece pequeno demais para ser ignorado.
Senna não era admirado apenas pela velocidade, mas pela capacidade de fazer o difícil parecer natural. Em momentos de pressão máxima, entregava precisão. Em um país tão fragmentado, conseguiu algo raro: unir pessoas em torno de um mesmo sentimento. Em dias de corrida, o Brasil inteiro parava. Havia tensão, expectativa e orgulho. A proximidade de mais um aniversário de sua morte reforça essa memória. Mais do que um ídolo, tornou-se um símbolo de excelência em momentos difíceis. Nos mercados, como nas pistas, são esses momentos que realmente definem o resultado.
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