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Maio 2026Carta Mensal

A realidade em movimento

Flexibilidade intelectual, geopolítica do petróleo, o avanço da inteligência artificial e a seletividade que o mercado volta a exigir.

Investir é, em boa medida, enxergar a realidade antes que ela se torne consenso. O desafio é que essa realidade muda o tempo todo, muitas vezes de forma rápida e desconfortável.

Por isso, uma das habilidades mais importantes para qualquer investidor é a flexibilidade intelectual. Ter convicções é necessário. Saber revisá-las quando os fatos mudam talvez seja ainda mais.

Na carta de março, escrita logo após o início do conflito no Oriente Médio, comentávamos que nosso cenário base ainda apontava para uma escalada relativamente limitada. A diferença de capacidade militar entre os envolvidos e o interesse americano em evitar um conflito prolongado pareciam funcionar como fatores de contenção.

Passados dois meses, o cenário continua sem uma escalada bélica mais ampla, mas a dinâmica mudou. Hoje, a tensão se concentra muito mais em torno do Estreito de Ormuz, ponto estratégico por onde passa parcela relevante do petróleo mundial.

O Irã entende que o tempo pode jogar a seu favor. Diferentemente de democracias ocidentais, regimes autocráticos possuem maior capacidade de absorver desgaste econômico e social no curto prazo. Ao mesmo tempo, preços mais altos de energia pressionam inflação, consumo e popularidade do governo americano às vésperas das eleições legislativas de 2026.

Mais do que uma escalada militar direta, Ormuz passou a funcionar como instrumento de barganha. Qualquer restrição ao fluxo de navios aumenta o preço do petróleo, amplia a pressão econômica global e eleva o custo político para os Estados Unidos. Além disso, os estoques globais de petróleo vêm diminuindo. Caso o impasse se prolongue por mais alguns meses, existe o risco de uma alta mais significativa na commodity, reacendendo pressões inflacionárias e elevando o risco de desaceleração econômica global.

Ainda não enxergamos esse como o cenário mais provável, mas é um risco que deixou de ser desprezível.

Essa mudança de cenário impacta diretamente a forma como olhamos para os investimentos. Um choque prolongado no petróleo tende a pressionar inflação, dificultar cortes de juros e aumentar a volatilidade dos ativos de risco. Isso exige mais cautela com posições dependentes de queda rápida de juros ou de um ambiente global benigno, além de reforçar a importância de liquidez e diversificação.

Curiosamente, enquanto parte do mercado acompanha o risco geopolítico, outra narrativa voltou a dominar os ativos globais: inteligência artificial. As bolsas americanas renovaram máximas históricas impulsionadas pelo setor de tecnologia. O avanço de ferramentas como Claude Code e OpenAI Codex, somado à demanda extremamente forte por capacidade computacional e consumo de tokens, reacendeu o entusiasmo com o potencial econômico da IA, beneficiando empresas ligadas a semicondutores, data centers e infraestrutura tecnológica.

Esse movimento também impulsionou o setor de tecnologia na Coreia do Sul, diante da expectativa de aumento estrutural da demanda por chips de memória e capacidade computacional.

Essa rotação global em direção a empresas de tecnologia ajuda a explicar a menor atratividade relativa de mercados menos expostos a esse tema, como o Brasil. Depois de meses de forte entrada de fluxo externo, os ativos locais passaram por uma acomodação. No cenário doméstico, o aumento das incertezas eleitorais também voltou a pesar sobre a bolsa brasileira.

No crédito privado, por outro lado, o mercado local começa a apresentar uma dinâmica mais interessante após alguns meses de abertura de spreads. Depois de um longo período de compressão excessiva de prêmios, as taxas implícitas de carrego voltaram a níveis mais atrativos, principalmente em fundos de crédito e debêntures incentivadas.

Ainda não é possível afirmar se o mercado já passou por toda a reprecificação ou se veremos novos eventos de crédito nos próximos meses. O ponto principal é que o ambiente voltou a exigir cautela, seletividade e atenção à liquidez.

No fim, investir não é ter uma visão fixa sobre o mundo. É acompanhar a mudança das probabilidades, ajustar a leitura quando a realidade muda e preservar flexibilidade suficiente para agir quando os preços começam a oferecer melhores assimetrias.

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